A cozinha não é para qualquer um.
Cozinha é quente, com forno e fogão. É suja, com louças e panelas. É perigosa, com facas e fervuras.
É preciso ter jeito, ter força, ter paciência. O brigadeiro não fica liso se o fogo não for baixo. As azeitonas não desidratam se não ficarem seis horas no forno. As claras em neve tem que ficar no ponto, nem mais, nem menos.
Quem cozinha não pode ter medo. De colocar ingrediente novo na receita, de tirar ingrediente antigo da receita, de inventar uma nova receita para aproveitar só aquilo que sobrou na geladeira.
É preciso ter raiva para continuar na cozinha. Para esbravejar quando aquela vasilha cheia de creme escorrega da sua mão e suja tudo ao redor. Para gritar em silêncio quando a faca afiada acerta um dedo no caminho. Quando a massa já está quase pronta e só então se descobre que o fermento acabou. Para escutar alguém dizer que não ficou bom.
Não existe cozinha sem barulho. De pedidos, de entregas, de batedeira e liquidificador, de carne na chapa ou de manjericão no azeite. Não existe cozinha sem cheiros. Sem cores.
A cozinha precisa de companhia. Pode ser de um assistente, de um amigo, de uma estagiária ou só do Chico na vitrola. Mas, na cozinha, é preciso estar junto. Porque a comida une, agrega, acrescenta, aproxima.
E mesmo com tudo isso, muita coisa ainda desanda, queima, amolece, perde. Cozinhar é mais do que misturar ingredientes. É colocar a dose certa, no lugar e no tempo certos.
A cozinha é visceral. Para ser cozinheiro é preciso, em todos os sentidos, ter estômago. Para fazer com perfeição, mais uma vez, aquele prato que ele mesmo não suporta mais comer. Para entregar cada refeição como um presente para quem come. Para colocar em cada receita um parte de si mesmo.
Definitivamente, a cozinha é para poucos.
E, hoje, eu descobri que a cozinha é o meu lugar.